A Raia - La Raya

Entre duas Margens - Entre dos Márgenes

Truca

07/10/2008

Tempo de Janela

Upsss, a Janela está empenada. Deve ter inchado com a humidade e agora não abre.
Enquanto o carpinteiro não resolve o problema estamos como de custume, das 21 às 22h, no chat , encontram o link AQUI.
Vamos tentar voltar assim que possivel, haja Janela, que o Tempo urge.

27/09/2008

Tempo de Janelas

Estoril, 2005
Estoril, 2005



Carcavelos, 2006
Carcavelos, 2006



Tomar, 2006 A janela da Janela
Tomar, 2006 A janela da Janela



Tomar, 2006
Tomar, 2006



Londres, 2005
Londres, 2005

Algarve, 2006
Algarve, 2006 Sotavento

15/09/2008

titulo




Tintim e o VIH/SIDA

Sim, porque não? Não é preciso sequer gostar do assunto ou conhecer as suas peripécias para os reconhecer, são ícones da nossa sociedade.
Quem é que nunca ouviu falar do Tintim? Ou da SIDA?
As semelhanças não ficam por ai, tal como a SIDA, também o Tintim pode ser observado e comentado sobre várias perspectivas. Politicas, sociais e claro, artísticas. Para analisarmos a obra de Hergé também temos de compreender o seu autor e com isso corremos o risco de nos afastarmos do que realmente interessa, o prazer de ler as historias do franzino Jornalista Belga.
Para quem gosta, o que interessa se nunca o vimos numa redacção de jornal ou que realmente só exerça essa função nas suas 3 primeiras aventuras? Ou que nem este número seria consensual entre os puristas da Obra? Qual é a relevância prática de quem desfruta de uma aventura de Tintim e Milu em tentar ligar as raras mas peculiares figuras femininas das histórias com a personalidade conturbada de Georges Remi, por exemplo? Apenas pelo prazer de as ler, para mim é perfeitamente perdoável certos preconceitos e cliches nas historias iniciais, reflexos da era em que foram criados, que o próprio Autor reconhecia e dos quais se tentou redimir no decurso da restante obra. Mas isso é para mim. Hergé foi preso várias vezes depois da II Guerra Mundial acusado de colaborar com o invasor Nazi. Hoje em dia continua a ser alvo de processos judiciais o tomo "Tintim no Congo/em África" acusado de racismo. A verdade é que realmente o artista trabalhou como tal para um jornal controlado pelo Ocupante e Tintim no Congo descreve os Africanos como o Mundo Ocidental os via nos anos 30 do sec XX, os bons selvagens, simples, honestos e atrasados. Agora podemos explorar-los à mesma, não podemos é caricaturá-los.
Para ironia desta historia toda de preconceitos, "Tintim no Pais dos Sovietes" era acusado pelos Comunistas e uma certa esquerda mais radical de ser um reles panfleto anti-Soviético. O livro foi impedido de ser traduzido e publicado em Portugal durante mais de 10 anos depois do 25 de Abril. Depois caiu o muro...
Era verdade, sempre foi, Hergé nunca conheceu a URSS e limitou-se a acreditar na propaganda anti-Comunista da época. A verdade, sabemos agora, era que a imaginação dele apenas beliscava a dura realidade de uma violentíssima ditadura.
Este é o exemplo de uma maneira de abordar "As Aventuras de Tintim e Milu" por Hergé. Distantes, clínicos, analisando factos e contradições, condenações e atenuantes.
Para quem aprecia o conhecimento dos factos para poder ter uma opinião própria é interessante, mas sempre irrelevante se já gostamos da historias criadas para os jovens dos 7 aos 77 anos.
Menor relevância tem para aqueles que apenas conhecem a personagem e nunca deram muita atenção ao assunto. Porque a Banda Desenhada não é, no geral, um assunto que lhes diga alguma coisa.
Este género de abordagem é essencial, é necessário que alguém a faça. Mas não vai atrair novos leitores ou influenciar muito os hábitos de leitura dos fans.
Para mim, que me encontro no grupo destes últimos, mas que antes disso sou completamente maluquinho por B.D., é até tanto ou mais interessante discutir as técnicas, os estilos, as influencias. Mas é o género de conversa aliciante para artistas de Banda Desenhada ou grandes admiradores da Arte. Mais uma vez, serve para criar ou fortalecer opiniões, dar sentido a afinidades, explicar mudanças mas não cria nada, só por si; para além, talvez, da vontade de saber mais...
E é completamente desinteressante para quem não tem nada a haver com o assunto.
...No entanto, deixo aqui as analogias subtis e pulo direitinho no assunto SIDA pela mão de Hergé.
Pelo seu estilo, neste caso. A Linha Clara.
Sem entrar em detalhes aborrecidos, o estilo é....bem, aquilo que se vê sem se reparar.
É a simplicidade do desenho em beneficio da narrativa. Um traço constante, bem delineado, cores fortes, proporções realistas.
E que me serve para realçar a falta que isso faz a nós todos, infectados ou não, sobre o VIH. Um discurso acessível a todos, sem um peso Académico insuportável mas com substancia suficiente para ser interessante.
Voltemos ao Tintim e ao facto de que se pode ser conhecido sem ser compreendido. Assim como o VIH/SIDA também o jovem herói pode ser objecto de varias interpretações, algumas muito distantes da realidade. E tal como no VIH, também com Tintim e Milu muitas vezes essas más interpretações não parecem ter origem clara ou um proposito definido. E tal como na doença em que tanto Seropositivos e Seronegativos, muitas vezes com as melhores intenções mas sem reflectirem muito sobre o assunto, continuam a acreditar e a reproduzir tantas falsas noções sobre a doença e TUDO o que lhe está relacionado, também Tintim sofre dos mesmos males pela mesma razão: Desconhecimento no sentido em que o pior cego é aquele que não quer ver.
Em Portugal, no caso do trabalho de Hergé, temos Milu, esse desconhecido.
Agora temos a internet, já não é possível.
Basta ir ao Portal oficial de Tintim (Tintin) e ler a biogafria do cachorro.
Está em Francês, Inglês e Holandês.
É que durante toda a minha vida tropecei de vez em quando em alguém que afirmava:
-Milu é uma cadela!
É daquelas que não dá (dava) para dar troco ou sequer valer o esforço mesmo que se tenha revista e colecção de livros atrás de nós, como me chegou a acontecer.
Ou era porque a tradução era Brasileira, ou por isto ou por aquilo, mas sempre argumentos tão parvinhos e com aquela simplicidade de raciocínio tão infantil que nos sentimos uns monstros em o desmanchar, que nunca levei nenhuma dessas discussões a sério. Mas comecei a ficar curioso no porquê da lenda. E para não vos estar a aborrecer com transcrições variadas em várias linguas das aventuras de Tintim em que Milu é descrito como um cachorro, basta acreditar no pessoal da fundação Hergé:
O nome Milu é inspirado no diminuitivo de uma amiga do Autor, Malou.
Depois continuam a descreve-lo, a ele, cão.
É "il" para aqui, "il" para ali...
"Il", não "elle".
Ele, não ela.
Serve isto logo para desfazer um dos argumentos da teoria da cadela que diz que Milu é um nome feminino por isso tem de ser uma fêmea. Talvez, mas o cão chama-se, na verdade, Milou e não Milu, apesar de se ler da mesma forma. Será daqui a confusão? Um especialista (obviamente distraído) chegou a levantar a hipótese de a causa da lenda estar relacionada com o facto de se chamar "a milu" na primeira tradução e publicação de uma aventura de Tintim em Portugal, "O Templo do Sol", no Cavaleiro Andante de 1952. Ora eu sou o feliz proprietário de um exemplar desse tesouro que é o primeiro ano de publicação do Cavaleiro e posso assegurar:
Nessa altura, Tintim era Tim-Tim, o capitão Haddock, capitão Rosa, o professor Girassol era o Sr Pintadinho de Branco e Milu... é o Ron-Ron!
Sobra um ultimo argumento mas esse é ridículo: Milu não tem pilinha. Pois não, nem Jolly Jumper, um assumido garanhão, também companheiro inseparável de outro herói, o Lucky Luke. Nem nenhuma personagem da B.D. orientada para o publico juvenil tem pilinhas. Nem tem sexo, fazem amor, quanto muito. Porque juvenil não é infantil. (E B.D. para adultos também não é sinónimo de pornografia). E é mesmo falar do que não se sabe, se for essa a razão. E é não perceber que Milu é o companheiro de Tintim, não têm género. Não é cão nem cadela, é MILU, o Fox Terrier mais célebre do Mundo!
É perder tempo a discutir o sexo dos anjos, como é tanto o nosso hábito.
São os boatos e associação de factos que nada tem em comum a não ser o facto de quem os associa são indivíduos que não perdem tempo em os analisar...ou não sabem.
Assim, Tintim e SIDA, porque não, com mil raios e trovões?!?

Como falar de cor é sempre arriscado, utilizei o site oficial de Tintim e a wikipédia como apoio para escrever este texto. Precisava de saber escrever os nomes de forma correcta, os factos já eu (pensava que) conhecia e não me interessava a biografia para o caso. Georges Remi morreu já há uns anitos (1983) e tornou-se Imortal através da sua Obra. O resto...
Já ia no fim do meu texto quando reparo na ultima linha da página Portuguesa da wiki sobre Hergé:
2007 - Segundo uma notícia divulgada no jornal belga Le Soir, Hergé terá falecido após a contracção do vírus da sida.
...
Dou por mim a pensar:
- Mudou alguma coisa? Não teria escrito o texto se soubesse antes?
Tenho ainda 37 anos para pensar nisso...